O Ser Humano, reitor espiritual de si mesmo
Ouçam em si mesmos e olhem para o infinito do espaço e do tempo. Ali ressoam o canto das estrelas, a voz dos números, a harmonia das esferas.
HERMES TRISMEGISTO
Os iniciados buscam no íntimo do ser o caminho para a perfeição, sendo essencial a introspecção que contribui para a abertura da consciência, como um Aprendizagem iniciática, que germina com a luz maçônica; cada passo nas viagens misteriosas nos aproxima das profundezas de cada um, aquilo que está escondido nas aparências e que nos relata à nossa própria existência, para a elevação humana e que tenta dar resposta a perguntas fundamentais, convidando-nos a desvendar os mistérios em que nos encontramos.
A Maçonaria busca descobrir o verdadeiro ser, ou seja, abandonar uma forma profana de enfrentar a vida para se tornar o arquiteto de si mesmo, é sendo no próprio Iniciado que a Ordem deposita todo o seu conhecimento para impulsioná-lo à sabedoria e levá-lo ao domínio de suas virtudes, vê na pessoa o depositário de centenas de anos de experiência e perfeição constante.
A tentativa de conhecer o eu é o fundamento para construir a Grande Obra, buscamos uma explicação de nossa existência e do universo, no qual estamos imersos, da vida e de nossa consciência, para isso contamos com ferramentas como a força e a vontade, a inteligência e a razão.
É um grande desafio refletir sobre esses conceitos, em torno da condição humana e da descoberta de si mesmo e da construção do Ser, dono de seu próprio destino.
Desde a antiguidade, a capacidade de admiração permitiu investigar os eventos da natureza, é assim que Platão aponta que "nossos olhos nos fazem participar do espetáculo das estrelas, do sol e da abóbada celeste". A inquietação pelo universo nos deu a motivação para saber, é o que leva o homem a pensar, começando por admirar o que o surpreendia, perguntando sobre os ciclos astrais e a origem do ser humano, sendo este pensamento uma forma de ligação diante da vida e do conhecimento.
Aproximando respostas incertas e levantando mais perguntas, evidencia-se a dúvida como fonte crítica do conhecimento, aquilo que se busca pelo próprio conhecimento e que, segundo Kant, se instala (o pensamento) como um privilégio mas também como seu drama e levanta "que a razão tem o destino singular, em certa espécie de conhecimento, de ser sobrecarregada por questões de tal natureza que não pode evitá-las, porque sua própria natureza as cria", como são as questões de sua própria existência.
É assim que as pessoas tentam observar e analisar fatos para entender os problemas que se apresentam a elas, como uma necessidade de compreender sua realidade, além de dar conta de sua condição no mundo, para pensar em si mesma e constatar seu ser "histórico e criativo", sem poder fugir do passado como experiência vital para sua realidade presente. É um ser biológico, social e cultural que existe inserido e aderido com os outros, que atua para si e para os outros semelhantes, possui uma certa gana para a realização da consciência e enfrentar sua temporalidade e a inserção no mundo.
Hegel aponta que “a história da razão é a história do pensamento livre, não há nada racional que não seja resultado do pensamento, onde o pensamento é concebido por si mesmo como universal”. Pensar significa fazer algo passar para a forma de universalidade. Pensar significa, portanto, dar-se a determinação do universal, saber-se como algo universal, conhecer-se algo universal, infinito, ou pensar-se como uma essência livre que se refere a si mesma “como um despertar do espírito que existe sob a forma de uma relação consigo mesmo, ou seja, é realizado para ele e seu ser”.
O conceito de espírito significa sopro. O sentido atual desta palavra foi depurado de suas relações materiais da língua original, até dar-lhe o sentido de substância incorpórea, como o sujeito que resume todas as aptidões em que pensamos, queremos e sentimos que viria sendo o conceito absoluto de nossas faculdades superiores.
O ser humano é capaz de conceber sua espiritualidade, como aquela capacidade de descobrir aspectos em si mesmo, para criar as condições para seu próprio desenvolvimento e crescimento, a partir de sua força interior, sua imanência.
Quando se percebe o ser espiritual começa uma jornada para o conhecimento de si mesmo através do método da autoanálise, característica própria e intrínseca da racionalidade humana, esta forma de conhecer leva consigo a qualidade de desenvolver as faculdades afetivas e intelectuais, que lhe permite, por um lado, conhecer o meio em que o indivíduo está imerso, comparar e contrastar esse conhecimento do mundo exterior, com as motivações e volições próprias do indivíduo, operação que só pode ser realizada dentro da consciência e que se manifesta em um comportamento propositivo, dinâmico e criativo.
Segundo Jung, o processo em que se configura o eu é chamado de Individuação, sendo uma integração progressiva de polaridade da personalidade, como suas cognições, afetos, sensações, intuições e impulsos. O contato dos aspectos negados promove uma consciência amplificada que não é mais um conjunto de desejos, medos, esperanças de caráter individualista que deve ser compensado ou corrigido por tendências inconscientes, mas uma atividade do objetivo, que coloca o indivíduo em uma comunidade absoluta, sentida e indissolúvel com o mundo.
Ao perceber as mudanças produzidas no conhecimento, externo e interno, vemos como a ideia de direcionar nossos passos para aspectos não apontados anteriormente está despertando com mais força, aumentando a motivação para saber mais, para saber mais, para construir mais, no entanto, terminado um desafio, o homem é ejetado novamente para novas ideias e volta a Redirecionar seu caminho. Mas não satisfeito com os avanços externos, ele busca um sentido e uma projeção para seus atos, se volta para si mesmo em busca de respostas às interrogantes Quem sou?, De onde venho?, Para onde vou?
O ser humano toma consciência do ser em relação direta do conhecimento pessoal e da projeção de suas obras, de acordo com seu tempo e lugar, é a linha criativa que parte de um para chegar ao outro, é a consciência aberta ao contato com o devir, ao desenvolvimento de suas intenções profundas para se instalar no novo, mobilizando os esforços para conseguir realizar, para os outros e para si, as mudanças inseridas em um quadro superior a si mesmo, aquilo que o aproxima da compreensão do macro e microcosmos.
É sua vontade se tornando realidade, a jornada incansável do despertar à consciência para mergulhar na tarefa de construção do futuro, aquilo que se revela por meio do conhecimento e da prática da força sobre a matéria inerte dirigida por seu espírito empreendedor, aquilo que o torna único, irrepetível. Aquele ser, a partir da compreensão progressiva de sua temporalidade e sua fragilidade diante do universo, entra em contato com a profundidade de sua essência e percebe sua íntima relação com a natureza, da qual parte e termina, formando a partir de sua singularidade e universalidade a consciência da unidade e do todo, do que cria, nasce, surge e se projeta para o infinito.
A pessoa e especialmente o iniciado se torna o arquiteto de si mesmo quando olha para dentro, travando batalhas pelo domínio de suas forças atávicas, aquilo que marca sua humanidade e sua perfeição, reconhecendo no escavo da escuridão os pontos fortes que lhe permitem encontrar o caminho de sua vida, a busca incessante para compreender o erro em que nos encontramos e enfrentar as dificuldades, na tarefa do conhecimento de si mesmo, condição inseparável de aprendizagem e de melhoria individual.
A espiritualidade do homem se concretiza em suas ideias e suas obras, são aquelas manifestações produto do pensamento metódico, da intuição, da meditação, da contemplação, da criatividade, de sua ação diária diante dos eventos do aqui e do agora, de seus sentimentos expressos nas artes e dos atos expressos em sua dimensão social, sendo o próprio ser humano criador de sua história, determina em seu caminho as consequências e seu próprio destino responsável por sua condição temporal, é quem define, conceitua e interpreta a realidade ao seu alcance, para alcançar a unidade Espiritual no crepúsculo de seus dias.
Descobrir o próprio caminho é percorrer um longo caminho para o eu, a jornada para o interior do ser que se expande na ação do homem em seu meio, a difícil tarefa da busca de sua própria existência, Luta intransponível diante da dúvida, aquela característica que o marca em seu caráter, em sua vocação e suas obras, é quem toma consciência de sua liberdade interior para manifestar suas ideias e concentrar seus esforços na própria formação de sua personalidade, abraçando o impulso interno que é seu espírito, capaz de vencer os preconceitos e dogmas para ir em busca da verdade, daquela que está coberta por véus infinitos e usar a razão para dar conta de um amanhã melhor, de elevar suas capacidades até o domínio de suas ações e acender a tocha do conhecimento nos outros. É o fogo inesgotável aceso em nosso interior que expande o caminho para realizar as obras que nossa inteligência e vontade e nos colocam com vontade altruísta ao socorrer os caídos, defender a dignidade e promover a liberdade.
A maçonaria através de suas práticas e doutrinas, nos ensina a responsabilidade inescapável consigo mesmo, o simbolismo constitui a metodologia pela qual vamos descobrindo os significados internos de nossa própria espiritualidade, o conhecimento do mundo, o enobrecimento da solidariedade e a aspiração feliz da humanidade, a linguagem alegórica fala à inteligência, à vontade e ao coração com o olhar voltado para o Oriente. Usamos nossas ferramentas para construir o templo universal que possui três colunas por fundamentos, a sabedoria ou pensamento que o dirige, a força ou energia moral que o executa e a beleza ou harmonia das forças mentais, a concordância entre o pensamento e a ação.
A Maçonaria se dedica a formar consciências esclarecidas, incentivando seus membros a conquistar as mais nobres prerrogativas do conhecimento humano, para o qual é necessário um trabalho sustentado, que em um primeiro momento procede a um polimento intelectual e moral, que tem por Objetivo desembaraçar o espírito de tudo o que impede a luz de chegar até ele, para depois atraí-la para si e impregnar-se totalmente dela, para, posteriormente, iluminar seu entorno.
Esta transformação, nas palavras de Oswald Wirth, é "a criação do homem por si mesmo" capaz de olhar para dentro de si mesmo. Este olhar, retraído sobre si mesmo, faz-se descobrir um vasto domínio de conhecimentos independentes de toda observação material. E com esse conhecimento caminha abrindo fronteiras para se tornar o reitor espiritual de si mesmo.
É incessante a busca do homem na compreensão de sua realidade, descobrimos que nossos sentidos dão conta do exterior, daquilo que por aparência nos é apresentado, vamos descobrindo e explicando por meio da razão os acontecimentos do universo e os fenômenos observáveis.
Somos protagonistas das mudanças quando estamos conscientes delas, vamos forjando a história quando olhamos Nosso interior e sentimos a força dos princípios universais de Igualdade, Liberdade e Fraternidade.
O sentido espiritual do homem o leva a conhecer, o impulsiona à perfeição e o chama a ser protagonista de si mesmo em uma construção de seu ser individual, seu eu, ligado ao seu ser universal que permite vinculá-lo à natureza e seu destino, é aquele contato com o íntimo de seu ser o que permite ao homem dirigir-se como uma flecha lançada para o meio do céu, para encontrar um ponto de união entre ele e o universo, aquele instante de pleno sentido às suas ações, como fonte infinita da qual emana sua espiritualidade e que, por tal, seu senso de universalidade compreende que seus pares possuem também tal condição que o constituem em seus irmãos de caminho, na busca da verdade.
O autoconhecimento, a perceção da condição de singularidade e universalidade do homem, a conquista da vontade e a determinação de seus atos, permite a condição de autossuperação constante, em favor de si e dos outros, é o homem capaz de buscar a perfeição no interior de seu ser, constituir-se no construtor através de um intenso cultivo da virtude, uma alta valorização dos direitos e deveres do homem e seu profundo sentido espiritual, aquele sopro impulsionador, da magnífica obra de seu ser interior, para se constituir na pedra cúbica base do templo imaterial.
É através do uso da razão, do autoconhecimento, da sublimação das capacidades do homem e da busca incessante das respostas de sua essência e sua existência longe do erro, da ignorância, do dogma, dos preconceitos e do fanatismo que permitirá a conquista do triunfo da tolerância, da solidariedade, da liberdade entre aqueles que se propõem como objetivo a exaltação do espírito humano e a construção do verdadeiro ser.
O sentido espiritual é uma condição do ser humano e em seu aperfeiçoamento o homem avançou através da noite dos séculos, construindo no coração da espécie, a síntese superior da personalidade humana, um evento único na história das espécies vivas do mundo.
A Personalidade Sublimada, concebida como um círculo que recolhe em si todo um fluxo concêntrico de uma síntese individualizadora, é atraída pela unidade, pelo que poderíamos assinalar simbolicamente como a flor espiritual do seu Ser.
"O Aprendiz Maçom deve absorver-se em si mesmo, recuar-se sobre a fonte inicial de seu pensamento e de sua existência, a fim de buscar na razão pura o ponto de partida de seu conhecimento", diz o catecismo maçônico. Através deste processo hidalgo e sincero na busca interior, da introspecção franca e severa é possível vislumbrar o brilho reconfortante do velo de ouro da Humanidade: a Verdade.
Ricardo Bocaz Sepúlveda
Respeitável Loja “Pedro Lagos Marchant” Nº 138
Vale de Chillán - Chile
Fonte: Revista Maçônica de Chile - Edição Primavera 2024.
Tradução livre feita por: Juarez de Oliveira Castro