Iniciação e Evasão
Normalmente designa-se por evasão o índice que mede o número relativo de desistências dos participantes de uma dada missão. Assim, por exemplo, temos a taxa de abandono escolar que designa a percentagem de alunos que desistem de concluir um dado curso. Desconheço a atual taxa de evasão maçônica no Grande Oriente da Paraíba. No entanto, suspeito que o índice de desligamento de membros desta potência maçônica seja elevado.
É consenso entre muitos estudiosos que as falhas na seleção dos candidatos contribuem significativamente para os altos índices de evasão maçônica. Concordo com essa premissa, contudo acredito que outros fatores também influenciem esse cenário.
Há ainda outros dois aspectos, de natureza mais delicada, que raramente são discutidos: a cerimônia de iniciação e o acompanhamento do neófito. Tenho observado que, por mais dedicados que sejam os mestres, muitas iniciações são realizadas em condições que comprometem a sua efetividade.
A precariedade se manifesta em três pontos principais: falta de materiais adequados (como ferramentas insuficientes para todos os candidatos); ausência de mestres experientes para auxiliar a sessão magna; e a “necessidade” de concluir os trabalhos rapidamente, o que pode comprometer a profundidade do ritual.
O acompanhamento dos novos membros, em sua essência, é bastante limitado. Os aprendizes maçônicos, na maioria das vezes, recebem instruções focadas nos símbolos e nos rituais. É comum notar que esses são os assuntos que mais atraem o interesse dos maçons na internet. Seria possível mudar essa realidade?
A iniciação maçônica
A iniciação maçônica convida o indivíduo a transcender sua natureza inferior, para que possa emergir o ser superior que já habita em seu interior. Esse processo é simbolizado pelo desbastamento da pedra bruta, ou seja, pelo controle do ego e pela busca pelo autoconhecimento. A expressão maçônica "construir templos à virtude e masmorras ao vício" resume essa jornada interior. A tradição, por sua vez, sintetiza esse processo com a sentença: "morre e torna-te o que és”.
A iniciação maçônica propõe uma jornada de autodescoberta que culmina na realização do ser autêntico. Essa jornada é marcada pela experiência numinosa, um estado de consciência alterado que permite transcender os limites do ego. No entanto, como adverte Jean-Yves Leloup, a experiência numinosa, se não for acompanhada por uma profunda transformação interior, pode se tornar uma armadilha, servindo apenas para inflar o ego e não para libertá-lo.
Esta experiência, caracterizada por um sentimento de transcendência e conexão com algo maior, visa desconstruir o ego e permitir o florescimento do verdadeiro ser.
É lamentável constatar que muitos maçons, mesmo atingindo o grau de mestre, não incorporam os ensinamentos da Ordem. A iniciação, nesse contexto, se torna uma experiência vazia, inflando o ego em vez de conduzir à iluminação. É como ouvir alguém repetir "vaidade, vaidade, tudo é vaidade" sem que essas palavras tenham qualquer significado prático. Surge, então, a indagação: qual o propósito de uma iniciação que não transforma o indivíduo e não o leva a uma profunda autoquestionamento?
De que adianta uma iniciação se ela se resume a alimentar o ego, transformando-nos em colecionadores de experiências superficiais e de títulos que pouco significam? A busca por reconhecimento externo, por diplomas e aventais, obscurece o verdadeiro propósito da maçonaria.
Ao transformar a pertença a maçonaria em uma mera coleção de experiências superficiais, perdemos de vista seu verdadeiro propósito: o crescimento interior e a busca pela sabedoria.
A condição de pertença a Ordem
A iniciação maçônica destina-se a resolver nossos problemas ou a nos permitir uma vida nova, avançando através deles? A tradição nos ensina que o oásis só é alcançado atravessando o deserto. A maior tragédia para um maçom é acreditar que já alcançou seu objetivo enquanto ainda está em meio às provações!
Diante de uma situação complexa, como esperar que o aprendiz maçom encontre sozinho as respostas para questões tão vitais? A resposta mais comum que escuto é: "Livre instrução!". O que vemos com frequência é um obreiro, cheio de entusiasmo, buscando respostas em livros e na internet. Sem a orientação de um mestre, essa busca se torna um caminho incerto.
A resposta padrão, “Meus Irmãos como tal me reconhecem”, que é oferecida ao questionamento da condição de pertença a uma Ordem Maçônica, informa que a essa condição maçônica precisa ser reconhecida pelos demais membros regulares.
Quando um maçom busca a validação constante de sua condição, ele questiona sua própria capacidade de discernimento e interpretação dos princípios maçônicos. Se a confirmação externa é tão essencial, por que defender a livre instrução como pilar fundamental da Ordem?
Por fim
A evasão pode ser um indicador da adequação do caminho percorrido, sugerindo que nem sempre quem desiste fez a escolha errada. Reconhecer a incapacidade de atravessar o deserto é uma decisão sensata. Por outro lado, o alto índice de ausências e impedimentos legais é prejudicial para as organizações maçônicas. Nada é mais nefasto do que um grande número de obreiros com baixo índice de comparecimento às sessões da loja.
Exortação
Que o Grande Arquiteto do Universo nos ilumine na Pura Luz, a fim de que possamos trilhar nossos caminhos maçônicos com sabedoria, coragem e fraternidade. Que cada um de nós encontre o equilíbrio entre a jornada individual e a participação ativa na Loja, buscando sempre o aprimoramento pessoal e o bem-estar da comunidade.
Poeta Hiran de Melo
Mestre Maçom (Instalado), Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 24 de janeiro de 2008 da Revelação do Cristo.