A corda na Maçonaria: símbolo rico em significado e história
A corda possui diversos significados em diferentes culturas e períodos históricos. Geralmente, a corda esticada simboliza o impulso para ascender, enquanto, quando amarrada ao corpo, representa a conexão com o oculto e poderes secretos e mágicos. Também é um símbolo de união entre as pessoas, solidariedade universal e o poder dos deuses de ligar e desligar as forças do mundo e o destino dos humanos.
No contexto indiano, associada ao arco, a corda representa a força feminina que emana não da matéria, mas do ato de esticar a corda. O deus Varuna, por exemplo, possui uma corda que utiliza para se conectar com o mundo. Na escrita do antigo Egito, a corda é um dos símbolos do alfabeto, podendo designar tanto um nome masculino quanto a vida ou a existência.
Na Maçonaria, encontramos a corda de 7 nós no painel, a de 81 nós nas lojas e, em algumas vertentes mais antigas, cordas de 12 ou 13 nós. Sua simbologia possui diversas interpretações, que foram adaptadas e ressignificadas ao longo do tempo.
Neste texto, vamos explorar as origens, significados e diferentes interpretações da corda na Maçonaria.
Corda de 7 nós
Este é o símbolo mais complexo do painel devido suas variadas interpretações e visões de diferentes autores.
Há quem diga que é uma representação sintética da corda de 81 nós, ou que representa as 7 virtudes (Fé, Esperança, Caridade, Prudência, Temperança, justiça e Fortaleza), os 7 dias da semana que Deus criou o mundo, as 7 artes liberais (Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), dentre outros.
Estudar e interpretar todos estes significados são de suma importância para a jornada do Maçom, e apesar de não se ter apenas uma interpretação que podemos definir como CORRETA, todas elas complementam o trabalho para a construção social.
A origem da corda de 81 nós
Na Maçonaria contemporânea, a corda de 81 nós desempenha um papel simbólico fundamental, representando a união fraternal e espiritual que conecta todos os maçons ao redor do mundo.
O nó central, posicionado acima do V∴M∴, simboliza o Grande Arquiteto do Universo, esta disposição reforça a ideia de que toda a irmandade está unida sob uma força superior e universal.
A distribuição dos nós ao longo da corda também é repleta de significados. Os 40 nós na coluna do Sul e os 40 na coluna do Norte não são arbitrários, estas quantidades evocam diversos episódios significativos, tais como:
Os 40 dias que Jesus Cristo passou no deserto, como relatado no Evangelho de Mateus (4:2);
A duração do dilúvio, que segundo o livro do Gênesis (7:4) perdurou por 40 dias e 40 noites;
O período de 40 dias que Moisés permaneceu no monte Horeb, no Sinai, como descrito no livro do Êxodo (34:28);
Outros eventos históricos e mitológicos que empregam o número 40 como símbolo de provação, purificação ou transformação.
O número 81 pode, também, ter o seguinte significado: É 9 ao quadrado, que é 3 ao quadrado. O 3 é considerado perfeito em muitas culturas antigas. A sequência 3, 9, 81 simboliza uma progressão de importância matemática.
Entretanto, é fascinante observar como o simbolismo da corda evoluiu ao longo do tempo. Na Maçonaria antiga, a corda originalmente contava com 12 ou 13 nós, um número com suas próprias conotações simbólicas. Esta versão mais antiga da corda era uma ferramenta prática utilizada pelos maçons operativos em seu ofício de construção.
O processo de preparação da corda de 12 nós era meticuloso e preciso. Os maçons iniciavam dando um nó em cada extremidade da corda. Em seguida, dobravam-na ao meio e faziam mais um nó. Este processo era repetido, resultando em quatro seções de corda, cada uma com três nós igualmente espaçados. A soma destes nós (3+3+3+3) totalizava os 12 nós intermediários. Com a corda esticada, ficavam 13 nós.
A aplicação prática desta corda era engenhosa. Quando disposta no chão, formava um triângulo retângulo perfeito, com 3, 4 e 5 nós em seus lados. Este arranjo criava um ângulo exato de 90 graus, essencial para a construção de um esquadro perfeito. O esquadro, por sua vez, era uma ferramenta indispensável nas construções da época.
Como podemos observar na imagem abaixo, a corda possuía 12 nós fechada formando o triangulo, ou 13 nós quando aberta. Por isso em algumas publicações que falam sobre a corda nas construções, corda de medição pitagórica ou corda do triangulo egípcio, por vezes falam em 12 nós, outras falam em 13. Ambas são o mesmo princípio.
A versatilidade desta ferramenta não se limitava à criação do esquadro. Com algumas adaptações, a mesma corda podia ser transformada em outras ferramentas essenciais:
Nível: Utilizando o esquadro como base e adicionando uma pedra na ponta da corda, criava-se um nível preciso.
Prumo: Amarrando pedras de igual medida em cada extremidade da corda, obtinha-se um prumo eficiente.
Trena: Os nós igualmente espaçados serviam como medição nas construções, as trenas só foram inventadas em 1922
Compasso: Segurando uma das ponta da corda fixa em um ponto central e girando a outra ponta, formamos um círculo perfeito. Trabalho do compasso.
Além disso, o triângulo retângulo formado pela corda tinha aplicações ainda mais sofisticadas. Ele permitia aos construtores encontrarem a proporção áurea, um conceito matemático e estético fundamental, especialmente na construção de catedrais góticas. Esta aplicação baseava-se na escala de Pitágoras, demonstrando a profunda compreensão geométrica dos antigos maçons.
A transformação do simbolismo da corda de 12 nós para 81 ocorreu, assim como muitos outros símbolos, devido a evolução da maçonaria e as mais diferentes interpretações filosóficas que foram surgindo com o passar dos anos. Esta mudança envolveu uma reinterpretação matemática, onde o sinal de adição (+) foi substituído pelo de multiplicação (×). Assim, o cálculo inicial de 3+3+3+3 = 12 foi transformado em 3×3×3×3 = 81. Esta alteração não apenas aumentou o número de nós, mas também adicionou novas camadas de significado simbólico à corda.
Originalmente utilizada para construir as primeiras e mais essenciais ferramentas do ofício, ela se tornou um emblema da união e da busca pelo conhecimento que caracterizam a Ordem. Infelizmente, muito deste rico simbolismo operativo foi gradualmente perdido após a Revolução Industrial, à medida que a Maçonaria se distanciava de suas raízes na construção física e se concentrava mais em seus aspectos filosóficos.
Aislan Pansardis
A∴R∴L∴S∴ "Templários da Paz" N° 3969, Oriente de São José dos Campos-SP.
Publicado: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/